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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Recomeça...



Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…


                                                          Miguel Torga







quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Natal "light" com 0% de açúcar

Sem açúcar, o arroz-doce é apenas arroz malandrinho com canela. A lampreia de ovos não passa de uma omeleta estranha. E as rabanadas são pão frito. Enquanto assistimos ao Natal dos Hospitais, na televisão, decorre, em nossas casas, o Natal dos Diabéticos.


A escassez de açúcar veio dar à crise um sabor ainda mais amargo - como era, aliás, previsível. Todos os dias surgem novos entraves ao consumo: ou os produtos existem mas nós não temos dinheiro suficiente para os comprar, ou até teríamos dinheiro para os comprar mas os produtos não existem. Um dos poucos artigos que ainda tínhamos poder de compra para adquirir desapareceu das prateleiras dos supermercados. Tenho sincera admiração pelo trabalho da Deco, em defesa do consumidor, mas creio que vai fazendo cada vez mais falta um organismo que defenda o aspirante a consumidor: um cidadão que até gostava de consumir mas, por um variado leque razões, não consegue.

Que a impossibilidade de comprar açúcar surja na época natalícia agrava, evidentemente, o transtorno. Seria como não poder comprar chocolate na Páscoa, ou álcool na Queima das Fitas. Sem açúcar, o arroz-doce é apenas arroz malandrinho com canela. A lampreia de ovos não passa de uma omeleta estranha. E as rabanadas são pão frito. Enquanto assistimos ao Natal dos Hospitais, na televisão, decorre, em nossas casas, o Natal dos Diabéticos. Sendo embora um modo de evitar que passemos a assistir ao Natal dos Hospitais ao vivo, não deixa de ser insípido.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Paramore - Ignorance


"(...) a ignorância é uma fogueira que devora o homem - alimentada pelas enganosas sensações da Vida, que os sentidos recebem das enganosas aparências do Mundo." Eça de Queirós

domingo, 26 de dezembro de 2010

sábado, 25 de dezembro de 2010

Mundo cão de água português



A visita de Barack Obama a Portugal voltou a colocar a questão da raça no centro da discussão política. Surpreendentemente, foi a raça de um cão


6:16 Quinta feira, 16 de Dez de 2010


Creio que o tempo decorrido sobre a Cimeira da NATO permite que olhemos para ela com aquele distanciamento que permite ver o essencial. É muito raro que eu consiga ter esse tipo de distanciamento sobre os assuntos. Normalmente, tenho o distanciamento que é próprio das pessoas que só conhecem os assuntos pela rama. O distanciamento que permite ver o essencial, em regra, não é tão distanciado.


Vamos, então, por uma vez sem exemplo, ao essencial. A visita de Barack Obama a Portugal voltou a colocar a questão da raça no centro da discussão política. Surpreendentemente, foi a raça de um cão. José Sócrates ofereceu solenemente ao Presidente americano uma coleira de cortiça e Cavaco Silva entregou-lhe, ao mais alto nível, uma estatueta de um canídeo. Apesar de tudo, Obama não sabe a sorte que teve. Parece que a estatueta era de bronze. Podia ser de loiça.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natal


Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.

O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…

Miguel Torga

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Manhã de Inverno


Coroada de névoas, surge a aurora
Por detrás das montanhas do oriente;
Vê-se um resto de sono e de preguiça,
Nos olhos da fantástica indolente.

Névoas enchem de um lado e de outro os morros
Tristes como sinceras sepulturas,
Essas que têm por simples ornamento
Puras capelas, lágrimas mais puras.

A custo rompe o sol; a custo invade
O espaço todo branco; e a luz brilhante
Fulge através do espesso nevoeiro,
Como através de um véu fulge o diamante.

Vento frio, mas brando, agita as folhas
Das laranjeiras úmidas da chuva;
Erma de flores, curva a planta o colo,
E o chão recebe o pranto da viúva.

Gelo não cobre o dorso das montanhas,
Nem enche as folhas trêmulas a neve;
Galhardo moço, o inverno deste clima
Na verde palma a sua história escreve.

Pouco a pouco, dissipam-se no espaço
As névoas da manhã; já pelos montes
Vão subindo as que encheram todo o vale;
Já se vão descobrindo os horizontes.
                                           
Sobe de todo o pano; eis aparece
Da natureza o esplêndido cenário;
Tudo ali preparou co’os sábios olhos
A suprema ciência do empresário.

Canta a orquestra dos pássaros no mato
A sinfonia alpestre, — a voz serena
Acordo os ecos tímidos do vale;
E a divina comédia invade a cena.


Machado de Assis, in 'Falenas'

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

As melhores coisas do mundo!

Dedico esta mensagem às melhores coisas do mundo. Mas o que realmente são as melhores coisas do mundo?
Muitos filósofos dizem que só damos valor ao que perdemos. Pois bem, será possível que o Ser Humano seja tão inocente ao ponto de o fazer?
Muitas pessoas já me perguntaram o que realmente era importante para mim, mas, muito sinceramente, eu não sei, não sei mesmo...
Pensando bem, se as melhores coisas do mundo são o que realmente nos faz ou faria falta, humildemente afirmo que já sei responder.
O que me faz falta são os amigos que já perdi. Ora, como toda a gente, é óbvio que, infelizmente, também já perdi alguns, por estupidez, por burrice ou até por teimosia (embora ninguém teime sozinho).
E o que me faria falta se perdesse, são os meus amigos, (os que ainda se podem intitular desse nome tão gasto.)
Após desta extraordinária conclusão só me resta dizer que dedico esta mensagem aos amigos, isto é, aos que já "foram" e aos que ainda considero como tal...
Mas não posso deixar de dar um grande abraço a alguém que eu sei que vai ler esta mensagem; a alguém muito especial. A um Ser que me atura literalmente todos os dias... À minha melhor amiga!... ; )


Alpha

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

I love you, música portuguesa

Gente portuguesa a exprimir-se em português sempre me fez confusão


Temo não saber inglês suficiente para compreender a música portuguesa. Não quero parecer velho, mas ainda sou do tempo em que a música portuguesa era cantada em português. Lembro-me bem dessa altura em que um aspirante a cantor conseguia pegar numa guitarra sem começar a verter as suas canções para uma língua que os turistas entendessem. Era estranho, claro. Gente portuguesa a exprimir-se em português sempre me fez confusão. Trata-se de um idioma bastante limitado, que restringe as possibilidades de expressão dos seus falantes, e portanto não admira que haja quem se veja forçado a recorrer à língua inglesa quando se trata de transmitir pensamentos realmente sofisticados, tais como "I love you, baby", "Please forgive me, baby", "Don't break my heart, baby" ou "Yeah, baby, you are my baby".
Não posso, no entanto, deixar de notar que ainda há um longo caminho para percorrer. Neste momento, os artistas portugueses que cantam em inglês ainda estão condenados a dar entrevistas em português. Como é evidente, fazem falta jornais portugueses escritos em língua inglesa - ou, pelo menos, jornais portugueses que, embora fazendo perguntas em português (se querem mesmo insistir nesse capricho), permitam que as respostas possam ser dadas em inglês. Caso contrário, prosseguirá esta violência desumana que consiste em forçar cidadãos a exprimirem-se na sua própria língua. Creio que há um ou dois artigos na Declaração Universal dos Direitos Humanos que censuram essa prática.
Felizmente, nem tudo joga contra os músicos portugueses que cantam em inglês. Por coincidência, a língua na qual eles se sentem mais à vontade é falada internacionalmente. Isso pode evitar-lhes embaraços parecidos com os que sempre afligiram os músicos portugueses com mais projecção lá fora. Todos nos lembramos dos concertos da Amália, sistematicamente interrompidos por espectadores que diziam: "Amália, what are you doing? Please sing in english! We don't understand you!" Para não falar do caso dos Madredeus, obrigados a tornar as suas letras mais acessíveis ao público estrangeiro ("À porta, I love you baby, daquela igreja, I miss you baby, vai um grande corrupio").
O meu único receio é que este desamor à língua portuguesa, e a ideia de que ela pode prejudicar o nosso ofício, tenham deflagrado no mundo da música e se propaguem a outras profissões. Que, por exemplo, um número considerável de canalizadores decida passar a consertar torneiras em inglês, para facilitar uma eventual carreira internacional, ou apenas porque tem mais estilo. "Let me unclog your toilet baby!" Enfim, não é o tipo de conversa que gostaria de ter com um canalizador. Embora reconheça que a frase talvez desse uma excelente música portuguesa.




Ricardo Araújo Pereira

O dia só tem 24 H...

Ano lectivo 2010 2011 - Mensagem da Ministra da Educação



Reacções ao discurso da Ministra...



Alpha

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Este país não é para corruptos...


Em Portugal, há que ser especialmente talentoso para corromper. Não é corrupto quem quer

... Que Portugal é um país livre de corrupção sabe toda a gente que tenha lido a notícia da absolvição de Domingos Névoa. O tribunal deu como provado que o arguido tinha oferecido 200 mil euros para que um titular de cargo político lhe fizesse um favor, mas absolveu-o por considerar que o político não tinha os poderes necessários para responder ao pedido. Ou seja, foi oferecido um suborno, mas a um destinatário inadequado. E, para o tribunal, quem tenta corromper a pessoa errada não é corrupto- é só parvo. A sentença, infelizmente, não esclarece se o raciocínio é válido para outros crimes: se, por exemplo, quem tenta assassinar a pessoa errada não é assassino, mas apenas incompetente; ou se quem tenta assaltar o banco errado não é ladrão, mas sim distraído. Neste último caso a prática de irregularidades é extraordinariamente difícil, uma vez que mesmo quem assalta o banco certo só é ladrão se não for administrador.
O hipotético suborno de Domingos Névoa estava ferido de irregularidade, e por isso não podia aspirar a receber o nobre título de suborno. O que se passou foi, no fundo, uma ilegalidade ilegal. O que, surpreendentemente, é legal. Significa isto que, em Portugal, há que ser especialmente talentoso para corromper. Não é corrupto quem quer. É preciso saber fazer as coisas bem feitas e seguir a tramitação apropriada. Não é acto que se pratique à balda, caso contrário o tribunal rejeita as pretensões do candidato. "Tenha paciência", dizem os juízes. "Tente outra vez. Isto não é corrupção que se apresente."


Ricardo Araújo Pereira

domingo, 5 de dezembro de 2010

A frontalidade de Saramago


Alpha

José Saramago

José Saramago (Azinhaga, Golegã, 1922) - Foi serralheiro mecânico e, mais tarde, director do Diário de Notícias, antes de se dedicar exclusivamente à escrita. Autor Português de reconhecido mérito, ganhou, em 1996, o Prémio de Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa. Ganhou o Nobel da Literatura em 1998.
De entre as suas obras destacam-se, em géneros diferentes, os Poemas Possíveis (poesia, 1966), Os Apontamentos (crónicas, 1976), Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido (teatro, 2005), Poética dos cinco sentidos - O ouvido (contos, 1979), Memorial do Convento  (romance, 1982), Ensaio sobre a cegueira (romance, 1995), A viagem do Elefante (Romance, 2008), Caim (romance, 2009). Vive desde 1993 em Lanzarote, ilha do arquipélago espanhol das Canárias.

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