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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Recomeça...



Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…


                                                          Miguel Torga







sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natal


Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.

O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…

Miguel Torga

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Manhã de Inverno


Coroada de névoas, surge a aurora
Por detrás das montanhas do oriente;
Vê-se um resto de sono e de preguiça,
Nos olhos da fantástica indolente.

Névoas enchem de um lado e de outro os morros
Tristes como sinceras sepulturas,
Essas que têm por simples ornamento
Puras capelas, lágrimas mais puras.

A custo rompe o sol; a custo invade
O espaço todo branco; e a luz brilhante
Fulge através do espesso nevoeiro,
Como através de um véu fulge o diamante.

Vento frio, mas brando, agita as folhas
Das laranjeiras úmidas da chuva;
Erma de flores, curva a planta o colo,
E o chão recebe o pranto da viúva.

Gelo não cobre o dorso das montanhas,
Nem enche as folhas trêmulas a neve;
Galhardo moço, o inverno deste clima
Na verde palma a sua história escreve.

Pouco a pouco, dissipam-se no espaço
As névoas da manhã; já pelos montes
Vão subindo as que encheram todo o vale;
Já se vão descobrindo os horizontes.
                                           
Sobe de todo o pano; eis aparece
Da natureza o esplêndido cenário;
Tudo ali preparou co’os sábios olhos
A suprema ciência do empresário.

Canta a orquestra dos pássaros no mato
A sinfonia alpestre, — a voz serena
Acordo os ecos tímidos do vale;
E a divina comédia invade a cena.


Machado de Assis, in 'Falenas'

domingo, 31 de outubro de 2010

Era uma Tarde de Outono


Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...

Olavo Bilac, in "Poesias"

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A miséria do meu ser!

A miséria do meu ser,
Do ser que tenho a viver,
Tornou-se uma coisa vista.
Sou nesta vida um qualquer
Que roda fora da pista.

Ninguém conhece quem sou
Nem eu mesmo me conheço
E, se me conheço, esqueço,
Porque não vivo onde estou.
Rodo, e o meu rodar apresso.

É uma carreira invisível,
Salvo onde caio e sou visto,
Porque cair é sensível
Pelo ruído imprevisto...
Sou assim. Mas isto é crível?
Fernando Pessoa

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Pois nossas madres vam a San Simon (Cantigas de Amigo)

Pois nossas madres vam a San Simon
de Val de Prados cadeas queimar,
nós, as meninhas, punhemos d'andar
con nossas madres, e elas enton
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.

Nossos amigos todos lá iran
por nos veer, e andaremos nós
bailand' ant' eles, fremosas, [en] cós,
e nossas madres, pois que alá van,
queimen cadeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.

Nossos amigos iran por cousir
como bailamos, poden veer
bailar moças de bon parecer,
e nossas madres pois lá querem ir,
queimen candeas por nós e por si
e nós, meninhas, bailaremos i.


Pêro Viviaez (CV 336, CBN 698, Cant. d'Amigo,
Crest. Arc., Textos Port. Med.), in Ema Tarracha,
Antologia Literária, Idade Média, Ed. Aster

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Por baixo da capa

…por baixo da capa
um imenso mar se alarga
fluindo em cada folha solta
por novos mundos
em contínua criação

…por baixo da capa
nada escapa
à universal lei da atracção
que prende a vida aos sonhos
o poema aos versos
a obra ao criador

…por baixo da capa
há sempre um postigo
pronto a desvendar
mistérios incontáveis
e trilhos insondáveis
de novas descobertas

…por baixo da capa
há sempre algo novo
mapa do tesouro
à espera de alguém
disposto a sonhar

Helder Martins

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